☕ #93: O 11 de Setembro do Bitcoin ✈️💥
Como um novato usando IA roubou U$ 60 milhões da hardware wallet mais "segura" do mercado.
Já vivi muitos hacks no Bitcoin, mas o de ontem foi, de longe, o mais devastador.
Em 6 blocos, 1.196 endereços tiveram suas moedas roubadas. Seus donos perderam 1.082,65 BTC - uns 60 milhões de dólares.

Os BTC não estavam em uma exchange, mas em auto custódia. Seus donos não tinham feito nada de errado. A wallet que eles usavam era vendida como 100% focada em segurança, livre de sh*tcoins, e de distrações. Era a favorita dos maximalistas!
O invólucro dela era translúcido: qualquer pessoa podia inspecionar visualmente o interior do aparelho. Mas transparência não basta, é só um pré-requisito pra auditabilidade. Ninguém enxergou o xabu antes do atacante.
A vulnerabilidade em questão tinha sido introduzida em 2021. Estava AO AR LIVRE fazia CINCO ANOS. Por que só foi explorada agora?
A resposta tem 2 letras assustadoras: I.A.
🕵️ Reconstruindo o ataque
O bug demorou anos pra ser descoberto. Mas, uma vez que as transações suspeitas foram confirmadas, engenheiros de diferentes times juntaram as peças rapidinho - o que deixa um gosto amargo, porque evidencia que esse esforço conjunto de auditar o código crítico alheio podia ter acontecido antes.
1.196 endereços foram drenados em 1.082,65 BTC (~$70.2M), entre 10:10:20 e 10:51:26.
Todas as transações do hacker pagaram a mesma taxa, 30.0 sat/vB — dezenas de vezes maior que a mediana dessa semana, 0.4-1.0 sat/vB. Esta é a “digital” deixada pelo atacante. E sugere que ele já tinha coletado todas as chaves privadas desses endereços antes.
1.183 deles eram segwit (BIP-84), sete eram BIP-49, seis eram BIP-44. Ou seja: o atacante não “escaneou” um só caminho de derivação, mas vários (pelo menos estes três).
💭 Minha hipótese atual:
Jan a Jul/2026: CEOs da OpenAI e da Anthropic aumentam o tom de seus alertas. As capabilidades de ciber-ataque das suas LLMs estão ficando perigosas. Estão intensificando suas “guardrails” e cooperando com a Casa Branca.
16/Jul/2026: o modelo chinês Kimi K3 é lançado. Uma suposta destilação de modelos de fronteira americano, tão potente quanto, e sem as “guardrails” deles.
16 a 20/Jul/2026: o atacante munido de uma LLM de ponta “sem filtros”, foca sua busca em potenciais problemas com geradores de números aleatórios. Essa é uma classe conhecida de bugs¹. A LLM concebe diversas maneiras pelas quais esses problemas podem ser engatilhados em aplicações comerciais, e fareja se eles pipocam em algum lugar. Aí, finalmente afunila em um modo de falha específico, e varre o código de carteiras de cripto open-source atrás de algum sinal dele.
~20/Jul/2026: Pimba. O modo de falha é identificado na wallet ColdCard, modelo Mk3. O firmware não usa seu gerador de números randômicos como pretendido, e faz um fallback silencioso para um gerador pseudorandômico de uma de suas dependências: este gerador usa como inputs determinísticos a data e a UID do aparelho. Não há outros inputs de aleatoriedade (como outras wallets fazem). A entropia na criação da seed cai dos 128 bits esperados para só 32 bits.
21 a 30/Jul/2026: o atacante escolhe uma faixa de UIDs e de datas, e cria um script que usa eles de input no gerador pseudorandômico para criar seeds a ritmo industrial. Ele vai derivando os endereços dessas seeds (por múltiplos caminhos, como vimos acima) e procura na blockchain quais desses endereços de fato existem e têm saldo². Nesses dias, o atacante monta sua lista de vítimas. Ele parece ter pressa.
30/Jul/2026: o ataque é executado em “pacotes” de transações em 3 blocos, num intervalo de 40 minutos. As moedas roubadas estão todas em 4 endereços agora altamente vigiados on-chain. Por enquanto, imóveis.
¹ em 2008, o SSH foi vítima de um exploit parecido, em cima de uma falha que tirava a imprevisibilidade dos resultados de um gerador de números supostamente randômicos.
² algumas dessas buscas foram feitas em um site que indexa blockchains e exige cadastro, segundo descoberta dos engenheiros da Block, que estão respondendo ao caso. Isso sugere um caminho para identificar o atacante, e potencialmente recuperar os fundos. Também sugere OU que o atacante era novato (não tomou devidos cuidados pra ficar anônimo) OU que ele tava com pressa (montar um índice próprio de blockchain não é uma tarefa de poucas horas), crente de que mais pessoas estariam planejando seus próprios ataques. Alguns endereços afetados não foram drenados por inteiro, o que reforça a hipótese da pressa.
✈️🏙️ Por Que 11 de Setembro?
O hack da ColdCard tá longe de ser o maior incidente de segurança da história do Bitcoin em valores, ou em número de usuários afetados.
Mas é o maior que eu já vi em quantidade de confiança perdida. A ColdCard era um ícone da autocustódia.
Assim como as pessoas pagam mais num Volvo porque sabem da segurança embutida, pagavam mais numa ColdCard porque dizia “transportar bitcoin com mais proteção”.
Um dos meus ensaios favoritos se chama “O Momento Straussiano”. Discute as consequências culturais, de longo prazo, do ataque às torres gêmeas. Leo Strauss nota que os grandes textos “velam” seus insights mais valiosos, porque a maioria dos leitores simplesmente não está preparada para ler a verdade.
Depois do 11 de Setembro, nós passamos a tirar os tênis toda vez que embarcamos pro exterior e nos despir pro fiscal dentro de um raio-X. Coletivamente topamos abrir mão de um poco de liberdade em nome de segurança.
Também atualizamos nossas premissas sobre o que nossos adversários são capazes de fazer conosco, e em quais termos queremos competir. Não dá pra depender só de diplomacia pra conter um inimigo que tá disposto a jogar um avião em cima de ti.
🏦 Um Novo Paradigma em Autocustódia
1️⃣ Primeira ordem:
A implicação imediata desse acidente é a perda da confiança na fabricante da ColdCard. Outros modelos da mesma marca também estão, em menor medida, expostos ao mesmo bug (Mk4, Mk5, Q). Hackeá-los custará mais recursos, mas é factível. Se houver uma quantidade alta de BTC numa seed gerada em um desses aparelhos, é questão de tempo até o dinheiro ser drenado.
O mais bizarro é que, uma vez descoberto o bug, o único remédio prático que a Coldcard podia aplicar era tentar correr pra roubar o resto das moedas vulneráveis mais rápido que o atacante.
Um update no firmware não faria efeito sobre as seeds já geradas. E a empresa nem tinha como comunicar seus usuários diretamente, instigando-os a mover fundos sem alertar o mundo inteiro, já que apaga todos registros de compradores para se proteger de vazamentos de dados.
Torço para que a Coinkite consiga sair dessa e se reerguer. Rodolfo, o fundador brasileiro, é uma pessoa de princípios. Mas o baque é gigante, e com certeza estão vivendo seu pior pesadelo.
2️⃣ Segunda ordem:
Um efeito importante de segundo grau é a desconfiança nas outras fabricantes de hard wallets. Todas estão se pronunciando e explicando didaticamente como evitam esse modo de falha especifico. Mas… imagina quantos outros bugs podem estar soltos por aí, esperando pra ser descobertos por um norte-coreano que tenha acesso à LLMs sem freio e tempo o suficiente? E não estamos nem entrando no mérito de computação quântica.
A ColdCard disse que recém fez uma rodada de testes usando IA contra seu próprio código-fonte, e não encontrou a vulnerabilidade.
A dependência em um único vendor sempre vai ser um ponto central de falha, então imagino que daqui pra sempre “o pêndulo” vai em direção a endereços multi-assinatura, multi-vendor, ao uso de passphrases por padrão, e de ETFs / exchanges.
3️⃣ Terceira ordem:
A ideia de se colocar todos seus BTC numa wallet, em algum lugar secreto, e ir se aposentar na praia sem nunca mais se preocupar soa cada dia mais irrealista, com o avanço das IAs.
O Bitcoin é uma Hidra, um Navio de Teseu, um amálgama de significados que são substituídos e re-arranjados no tempo.
Ontem, enfraqueceu a narrativa do “ativo soberano que qualquer cidadão auto custodia com facilidade”. A narrativa que ganha força é a de que “nem todo mundo precisa fazer auto custódia a todo momento pra que esse atributo de soberania do ativo seja preservado”. O que é importante fundamentalmente é ter a opção de custodiar o ativo por conta própria, e com ele atravessar qualquer fronteira, ou evadir qualquer sanção.
Se você vive num regime de exceção, vai querer estar em autocustódia a todo momento - se tá fugindo duma guerra, idem. Se você só vive num país de segundo mundo e desconfia do seu governo, talvez, depois de ontem, passe a reconsiderar os tradeoffs de uma exchange, ETF ou serviço parcialmente custodial.
⚔️🪖 Um Novo Paradigma em IA
Conforme o custo de ciberataques despenca, a cibersegurança pessoal deixa de ser uma coisa passiva. Passa a requerer cada vez mais uma gestão ativa, pelo menos pra quem tem uma boa parcela do seu trabalho/patrimônio/vida na internet.
Sou contra a ideia de ser banir modelos de IA de pesos abertos, por princípio. Entendo que a narrativa do “perigo iminente” acoberta uma tática de captura regulatória (por parte de Anthropic e OpenAI). Mas entendo que o argumento faz sentido.
Quando os chefes das grandes empresas de IA são vocais sobre os riscos da IA na cibersegurança, é sobre incidentes como esse da Coldcard a que eles se referem.
Centenas de pessoas perderam suas economias ontem, através de um bug que ficou 5 anos exposto.
Qual será o próximo ataque empreitado com ajuda de uma LLM de ponta? DeFi já viu vários.
O da ColdCard não foi o maior, mas foi o mais doído.
Alguma hora, as capacidades de “hacking” dos últimos modelos vai entrar num platô. Vai parar de evoluir tão drasticamente de um mês pro outro. Mas essa hora não é agora.
Por enquanto, suspeito que estejamos perto de passar por um “Momento Straussiano” nesse sentido.








