☕ #92: A Era da Hiperstição 🍀🔮
Estão apostando até na chance de um peido ser ouvido numa transmissão de TV.
Às 03:15 de Brasília do dia 3 de janeiro, Maduro foi capturado por forças americanas em Caracas. Mas, no começo da madrugada, algo estranho aconteceu.
As chances de que o presidente venezuelano fosse deposto DOBRARAM na Polymarket - antes de qualquer notícia oficial.
A Polymarket é uma plataforma pioneira de mercados preditivos. Um site onde as pessoas colocam dinheiro naquilo que acreditam que vai acontecer. E lucram quando estão certas, ou perdem quando estão erradas.
Não é a primeira vez que um mercado preditivo “antecipa” algo importante. Em novembro passado, a escolha do Nobel da Paz vazou na véspera. Em dezembro, a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência vazou horas antes do seu anúncio.
Já vi muita gente se deparar com essas histórias e exclamar: insiders estão manipulando o mercado! Ou seja, pessoas com informação não-pública estão expressando-a e lucrando com isso.
Acontece que insiders não são um acidente. São parte do design do negócio.
🐞 Insiders são uma feature, não um bug
Pode parecer injusto. Mas o objetivo dos mercados preditivos não é a justiça. É a acurácia.
A razão pela qual “insider trading” é ilegal em bolsas de ação é promover a ideia de equidade. Se o povo achar que as bolsas de ações não são justas, ele para de comprar ações, o que é um problema para todas as companhias listadas, e a economia como um todo.
Mercados preditivos operam sobre outra premissa. Não existem para atrair o máximo possível de participantes. Mas sim para prever o futuro com máxima precisão.
Insider trading nas bolsas de ações é normalmente associado a homens à paisana, de óculos escuros, trocando envelopes em corredores escuros. Mas, nos mercados preditivos, aumenta drasticamente a quantidade de pessoas que tem acesso à informação de valor extraordinário.
Segredos milionários não são mais restritos a banqueiros de Brasília e executivos da Faria Lima. Agora pertencem ao domínio dos agendadores de podcasts, escritores de discursos políticos, gestores de social media de grandes marcas - ou qualquer internauta munido de curiosidade suficiente.
E o melhor: você não precisa colocar seu dinheiro nessa selva pra sair ganhando.
Não precisa apostar pra se beneficiar desse motor informacional! Só precisa saber ler o que ele revela.
📰 Meu Novo Projeto: Um Jornal de Mercados Preditivos
ParadigmaNews.com.br é um jornal com “as notícias que ainda não viraram Notícia”.
Acredito que a dieta informacional das pessoas mais educadas está prestes a mudar drasticamente, migrando para longe do conteúdo genérico feito com IA e em direção a mais customização algorítmica.
Pensando nisso, programei um site que me avisa de mudanças nos preços de mercados preditivos relevantes.
O maior desafio foi distinguir “o que é uma mudança relevante” nos mercados.
Além de saber, é claro, quais mercados monitorar, e quais ignorar.
🌈⃤ O Espectro do Azar
Alguns mercados não tem valor informacional. Outros estão recheados dele. Você tem que saber distinguir.
Considere uma matriz que mede (1) quantas pessoas o resultado de um mercado impacta versus (2) quantas pessoas influem diretamente no resultado de um mercado.
Os mercados no quadrante superior direito são os que importam. Impactam muita gente, e o resultado é impossível de ser direcionado por um indivíduo sozinho, ou comitê.
Considere este caso do Brian Armstrong, CEO da Coinbase: ao fim de um call de resultados, leu várias palavras que um mercado preditivo previa que ele falaria naquele mesmo call.
Esta categoria de mercado tem até um nome: mention markets, “mercados de menção”.
Apostam se o Jerome Powell vai abrir um discurso com “boa tarde” ou “olá”. Quantos palavrões o Trump vai proferir num pronunciamento. E por aí vai.
Não são o tipo de mercado em que você deveria prestar atenção. Só servem para gerar manchetes e atrair fluxo de gente desinformada, ou atrás de entretenimento barato.
No outro extremo, estão os mercados decididos pela ação coletiva de muitas pessoas, e cujo resultado também impacta muitas pessoas. Como mercados eleitorais.
🧧 A Era da Hiperstição
Tem uma razão pela qual pesquisas de intenção de voto precisam ser registradas na Justiça Federal, desde muito antes de fake news existirem. A mesma razão pela qual é proibido espalhar notícias que um banco está sem dinheiro, que possam levar a uma corrida de saques que deixe o banco efetivamente sem dinheiro.
HIPERSTIÇÃO.
Superstição é quando tu faz algo que acredita que pode aumentar a chance de alguma coisa acontecer, mesmo que sabidamente não haja nexo causal entre as ações.
Hiperstição é quando PORQUE tu ACREDITA que uma coisa vai acontecer, aumentam as chances de ela acontecer. Existe nexo causal.
Mercados preditivos aumentam exponencialmente a superfície de impacto da hiperstição.
A aposta de U$30M de um francês, no limite, ajudou a eleger o Trump. Uma aposta que você fizer no nome da filha da Taylor Swift pode influenciar na própria escolha dela!
É distópico, mas já está acontecendo. E a tendência é que se impregne em detalhes cada vez mais minuciosos da vida cotidiana.
🏺 Apostar é Humano
Nossa predisposição a apostas NÃO é um fenômeno recente.
Elas são comuns desde, no mínimo, a Roma Antiga. A frase “alea jacta est”, normalmente traduzida como “a sorte está lançada", literalmente significa “os dados estão lançados”.
Alea (dado) é a raiz da palavra “aleatório”. Tinha imperador que escrevia até tratado sobre esse tipo de jogatina!
Em 500 e pouco depois de Cristo, Justiniano editou uma das primeiras regulamentações sobre apostas de que se tem notícia: a Lex Alearia permitia apostas em “esportes virtuosos” (como batalhas de gladiadores), mas restringia apostas em jogos de azar a ocasiões especiais.
A restrição do Justiniano não funcionou. Mil anos depois, os romanos estavam apostando mais do que nunca. Gostavam de comprar apólices de seguro de vida do papa, como uma forma de apostar na duração do mandato dele.
Em 1591, o papa Gregório XIV tentou coibir a prática, ameaçando com a excomunicação qualquer fiel que jogasse nesse tipo de “mercado preditivo”.
Mas a popularização da prensa limitou a efetividade do decreto. Como evitar que pessoas de outros países ficassem sabendo das probabilidades, e fizessem seus jogos?!
Na Índia e na China a jogatina com dados e artefatos do gênero também sempre foi popular. Os chineses gostavam de apostar nos SOBRENOMES dos civis que seriam convocados para o exército através de uma espécie de ENEM… até que, em 1885, o escândalo de Weixing provou que a tal da prova vinha sendo fraudada em larga escala. O insider trading bombava. Nada de novo no front.
Certos chineses usavam escritos minúsculos no interior de suas vestes para passar nas provas do alistamento militar e lucrar nas apostas.
A epidemia de apostas que vivemos tem sim contornos culturais (como já discuti aqui). Mas, mais do que isso, é resultado de uma inovação tecnológica, que empodera o indivíduo em relação às autoridades reguladores.
O Brasil até pode proibir que os brasileiros apostem em quem vai ser o próximo presidente. Mas não tem como impedir que o resto da população mundial o faça, em mercados imparáveis, anônimos, e on-chain.
Como diriam os hackers, “a informação quer ser livre”. Você pode fechar os olhos pra ela. Mas não pode fechar os olhos pras consequências de se fechar os olhos pra ela.
🕋 Rehoboam
Certas informações financeiras são inignoráveis.
Se houver 10 milhões de dólares apostando que “ninguém vai peidar audivelmente durante o discurso do Trump em Davos“, criou-se um incentivo irresistível para que alguém de fato flatule no evento.
A essa altura, se você entendeu o conceito de “Hiperstição”, já deve ter percebido como este texto termina.
Dominar mercados preditivos não é somente uma forma de lucrar com o futuro. É também um jeito de manufaturar ele.
Existem dezenas de milhares de mercados na Polymarket. Em alguns anos, provavelmente serão milhões. Em muitos, o volume é baixo, tem pouco “suco”. Você consegue lucrar no máximo $1, mesmo se operar com perfeição.
Não se justifica colocar um PhD para tradar um mercado assim. Mas, se for possível prover liquidez inteligentemente a ele, por menos de $0,20 em custos de inferência, aí passa a fazer sentido.
Mercados preditivos de cauda longa são uma arena propícia para agentes de IA capazes de agregar informação e precificar risco melhor que humanos. Os mais eficientes “farmarão” muito dinheiro desse jeito.
Na série Westworld, Rehoboam é o nome de uma inteligência sintética que começa prevendo as ações de todas as pessoas… e logo se torna capaz de ditá-las.
O Rehoboam de Westworld.
Pois a realidade acelerou rápido em direção a essa ideia.
Contei-lhes o caso do Brian Armstrong, da Coinbase, que leu, de forma corrida, várias palavras que apostadores da Polymarket achavam que ele falaria num call de resultados da empresa.
A internet o acusou de “manipular os mercados”. Eu discordo. Temo que tenha sido o contrário.
Não foi Brian quem manipulou o mercado. Foi o mercado que manipulou ele.












